O mecanismo de “projetar” sobre o outro nossas crenças e padrões fixados, é um fenômeno muito comum. De fato, uma grande fatia das nossas vidas pode ser “projetada” sobre tudo e todos ao nosso redor o tempo todo. E como dentro deste mecanismo uma grande dose de ilusão está presente, não conseguimos “ver” que, de fato, tudo aquilo que vemos é uma criação integral nossa; é uma invenção cinematográfica de “imagens” in-solucionadas de dores que ficaram presas dentro de nós.

Essas poderosas imagens são, de fato, as verdadeiras criadoras de boa parte do que julgamos ser nosso Destino; daquilo que julgamos ser “alheio a nossa vontade”. E de uma certa forma até o são, na medida em que lidamos com as “tramas” da nossa vida, como se não fossem de nossa total responsabilidade. E é justamente ai, neste ponto aonde fugimos da real solução para os nossos grandes problemas: quando não nos responsabilizamos por nossas criações, a consequência inevitável é que deixamos nossas projeções atuarem livremente, sendo que, de fato, a maioria das circunstâncias que nos atormentam, não estão tão fora do nosso “controle”, como acreditamos.

Muitas e muitas circunstâncias que se repetem “sem o nosso querer” são frutos de um “querer inconsciente, muito forte” e atribuíamos a Deus, ao destino ou quem sabe até a magia, certos acontecimentos negativos que estão completamente na jurisdição do nosso “livre arbítrio”. É lamentável mas a maioria das pessoas crê cegamente em suas projeções, este mecanismo interno é bastante articulado, requintado e convincente o suficiente para nos fazer crer, sem dúvida nenhuma, que ilusão é realidade. Ele nos convence com argumentos muito bons, que a culpa é toda do “outro” pela nossa infelicidade; a culpa é de fatores externos, do governo, da família, e em resumo concluímos que somos vítimas, somos impotentes perante a vida.

Esta é uma cilada astuta e muito difícil de ser desmascarada (porque, nem sequer desconfiamos dela) e como parece mais fácil e até comum viver a vida sem questionamentos, aceitamos este “destino” como um fato consumado. Eu não quero dizer com isso que não hajam fatos incontroláveis, que nos cheguem sem nossa escolha. Sim, existem circunstancias além do nosso controle ou vontade, mas não são a maioria, como acreditamos.

É importante saber: existe uma grande parte da vida que é criação nossa, enquanto outra não é; e nesse caso, não temos nada a perder tentando desligar a”máquina que nos ilude” internamente. Porque sem sua influência, cada vez mais, nos tornamos aptos a distinguir entre o que é do “Céu” do que é nossa tarefa transformar, para obtermos resultados diferentes.

Enquanto não perdermos o medo de ver a realidade “como ela é “, não conseguiremos interromper o mecanismo de projeção. Continuaremos a escrever roteiros, a convidar atores, dirigir cenas e re-encenar centenas de vezes as mesmas histórias de forma compulsiva. Precisamos de um certo esforço para desligar o projetor, desconfiando da mente e saltando para o centro do coração.

Podemos nos dar esse presente, que é viver a vida com mais presença pessoal e menos crença nas histórias contadas pela nossa mente, e isso envolve um grande risco (em nossa cultura): o risco de sermos enganados. E o que é mais curioso é que dando ouvidos a todas as histórias da mente, somos enganados sem reservas, o tempo todo.

Para se conseguir desligar o projetor, acima de tudo creio que é importante uma re-lembrança contínua de que um simples desejo basta. Um desejo forte, desprovido de preconceitos, julgamentos e respostas prontas. Com este tipo de desejo a vitória é garantida, mas antes de partir nesta expedição, precisamos nos preparar primeiro, precisamos assumir um compromisso sincero com nós próprios, e não temer nesta batalha estar em nossa própria companhia. Imbuídos da grande coragem de estar com nós próprios vencemos os Dragões da projeção. Aceitando tudo o que está dentro e ao mesmo tempo muito além do projetor, saímos da teia da impotência e entramos na senda da independência pessoal.

Erica Poonam

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